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CULTURA
27.06.2017
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Alimentos sagrados
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Celebrar e agradecer a abundância é um dos rituais mais antigos da humanidade. Primeiro os grãos e as sementes, frutos da generosidade da terra, e depois outros alimentos foram eleitos pelos povos para expressar a fé em tempos fartos e o agradecimento pela comida no prato, pela continuidade da vida e pela boa colheita. A pureza do arroz é reverenciada pelos japoneses e chineses. Os grãos do milho representam a fortuna para os americanos. A substância do pão é o sustento dos italianos. As cores e os aromas das especiarias estão nos rituais indianos de fertilidade. E nós, brasileiros, nos inspiramos em todas essas culturas. Conheça alguns alimentos e seu simbolismo:

 

 

 

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Espanha, Grécia e parte da Itália elegeram o azeite puro de oliva para simbolizar a fartura. Muito usado na culinária mediterrânea, ele faz bem à circulação do sangue e à digestão e garante o mais desejado tipo de abundância: a ter vida longa e saudável. Antigamente, era hábito nesses países começar o dia tomando um cálice de azeite extravirgem, o mais puro, para garantir saúde perfeita.

Dezessete séculos antes de Cristo, a costa da Espanha já era repleta de oliveiras. Até hoje esse país é um dos maiores produtores mundiais da azeitona, fruto que dá origem ao azeite. Substância completa, foi reverenciado na antiguidade como um líquido múltiplo e milagroso. Suas propriedades medicinais o destacavam como remédio para feridas dos guerreiros e doentes (muitos mais tarde descobriu-se que a azeitona tem o mesmo elemento básico da aspirina – daí seu efeito analgésico). Combustível, alimentava as lamparinas e fazia parte de rituais religiosos, simbolizando a preservação dos dons divinos.

 

 

 

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Desde sempre e para todos os povos, o pão é reverenciado como alimento essencial, que sustenta e nutre, afastando a escassez e a fome. Os que mais o exaltam são os italianos, que têm 250 variações catalogadas da mistura básica de farinha de trigo, água e sal. Na Itália, o ato de repartir o pão atrai prosperidade e multiplica a abundância, por isso ele não falta à mesa em todas as refeições.

A origem do pão é controversa. Sabe-se que ele foi o primeiro alimento elaborado – talvez pelos chineses. Porém restos arqueológicos atestam que o pão era consumido pelos egípcios e que se tornou comum na dieta dos gregos, sendo depois incorporado aos costumes romanos. Nessa tradição, molha-se um pedaço de pão, partido com a mão, no vinho antes de começar a refeição. O mesmo gesto é eternizado na cerimônia cristã da comunhão, em que ele tem sentido sagrado, nos tornando seres unos e abençoados. O pão simboliza o corpo de Cristo, a vida ativa, a pureza, o sacrifício e os pequenos mistérios, enquanto o vinho simboliza a contemplação e os grandes mistérios.

 

 

 

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Sem dúvida, o milho é um dos mais tradicionais símbolos da fartura nos Estados Unidos, justamente com a torta de maçã. O significado de ambos está ligado à abundância de alimentos que os imigrantes ingleses encontraram na nova terra, do outro lado do oceano. Quando Colombo chegou à América, em 1492, o milho já era encontrado da Argentina ao Canadá e os índios conheciam quase todas as espécies do cereal.

A abundância não admite desperdício, e o milho reforça esse lema, pois é totalmente aproveitável: a palha, quando verde, é boa forragem para bovinos. O cabelo do milho serve para fazer chá para os rins. O amido é usado na indústria de alimentação – na fabricação de glicose, maisena, margarina e fermento. É também ingrediente de medicamentos como penicilina, vitaminas B12, riboflavina e xaropes. Apreciado na culinária rústica e sofisticada, o milho tem preço baixo, sabor agradável e sustenta. Os grãos dourados remetem ao ouro da fortuna e agradam aos olhos e ao paladar até mesmo quando as espigas são preparadas da forma mais simples: cozidas em água e sal.

 

 

 

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Os condimentos, capazes de enriquecer e dar cor, sabor e perfume a alimentos básicos, como arroz, feijão, lentilha e grão-de-bico, são considerados verdadeiras preciosidades pelos indianos. E, nessa cultura tão espiritualizada, o ato de comer não sacia apenas o paladar. Por meio da comida, consegue-se estabelecer a harmonia entre corpo, mente e espírito. Essa integração constitui a verdadeira prosperidade. Segundo os hindus, o alimento é o presente sagrado de Brahma, o Deus Criador, e por isso, é a melhor oferenda nas festas religiosas. Tudo é preparado com muito esmero e dedicação.

A chamada garam masala, uma perfumaria mistura de especiarias e ervas – feito de cravo, canela, anis, cardamomo, coentro, cominho, gengibre, cúrcuma e usada no preparo de cereais e carnes –, é a alma da culinária indiana. Graças aos navegadores europeus do século XV, que trouxeram para o Ocidente as especiarias, podemos provar desses aromas e sabores exóticos e ainda dar a eles um significado especial, relacionado à fartura e à abundância.

 

 

 

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Esse cereal é abundante no Japão, na China, na Coréia e na Indonésia, e vem de 5 mil anos atrás a tradição de considerá-lo um símbolo de fartura. O hábito de atirar arroz sobre os noivos após a cerimônia de casamento é chinês: um poderoso imperador quis dar prova de vida farta e fez com que o casamento da filha se realizasse sob uma chuva desse cereal. O arroz faz parte dos altares budistas em toda a Ásia, simbolizando boa sorte, felicidade e prosperidade. E, na rotina, ele está à mesa e no cumprimento mais trivial. Os chineses costumam perguntar: “Você comeu seu arroz hoje?” – que equivale ao nosso “como vai você? Tudo em ordem na sua vida?”.

Na Coréia, os recém-nascidos são alimentados com arroz cozidos nas primeiras três semanas de vida, para atrair boa sorte e abundância. É costume entre os adultos, antes de começar a comer, jogar fora uma colherada do cereal, convidando os deuses a compartilhar o alimento e renovar o pedido de abundância. Outra curiosidade: na Coréia do Sul, como no Japão e na China, a comida vem servida em muitos potes. Para esses povos, quanto mais tigelas à mesa, mais fartura se atrai.

 

 

Fonte: Bons Fluidos, Ed. 41, Editora Abril

 

 

Acompanhe a belíssima música "Cio da Terra" nas vozes de Maria Bethânia e Omara Portuondo:

CIO DA TERRA

(Milton Nascimento / Chico Buarque)

 

Debulhar o trigo

Recolher cada bago do trigo

Forjar no trigo o milagre do pão

E se fartar do pão

 

Decepar a cana

Recolher a garapa da cana

roubar da cana a doçura do mel

Se lambusar de mel

 

Afagar a terra

Conhecer os desejos da terra

Cio da terra propícia estação

E fecundar o chão


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