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18.06.2019
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No tempo do mundo e da alma
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É possível encontrar um balanço mais harmonioso entre a cadência da alma e o compasso do mundo atual, onde tudo parece que tudo está o tempo todo por um fio. Vivemos entre duas correntes: uma, onde existe a vontade de deixar fruir; outra, onde há a necessidade de correr para eliminar tantos deveres da agenda. Como encontrar um balanço mais harmonioso entre esses dois pontos? Essa é a pergunta aflige muita gente. Afinal, quem não sente no corpo, na mente e no espírito o desgaste gerado pela aceleração constante, pela ânsia de dar conta de uma pilha de afazeres que só se acumulam, produzindo a sensação de que os dias encurtaram, e ainda manter-se conectado aos inúmeros chamados provenientes do universo digital?

E, para agravar o quadro, continuamos acreditando e obedecendo ao mito de que tempo é dinheiro. É por isso que o marcapasso frenético das sociedades capitalistas equipara a rapidez à produtividade, à eficiência e ao desempenho excelente. O mundo das conquistas externas se tornou mais importante do que a realização interna, o que se reflete na nossa relação com as horas. Para atender a uma determinada ideia de sucesso, não podemos perder nenhum minuto, temos que ser úteis o tempo todo, temos que ser “férteis” o tempo todo.

O perigo de viver pulando de um evento a outro, nessa tensão constante, é o de perder a paz de espírito. Como tudo acontece rápido demais, perdemos o significado da vida, a capacidade de simbolizar e absorver o vivido, o que “achata” e empobrece o cotidiano depauperado de mergulhos profundos e voos a perder de vista. Na correria, deixamos escapar o tempo da imaginação, do devaneio, da saudade, da intuição. Somente na pausa conseguimos ouvir nosso coração e dar ouvidos aos sonhos para que se transformem em projetos.

 

CHRONOS, KAIRÓS E AIÓN

 

No passado, encontramos modelos mais saudáveis de se relacionar com a ampulheta da vida. Os gregos antigos percebiam o tempo sob três lentes distintas: Chronos, o tempo cronológico, controlado pelo relógio, que nos persegue e devora; Kairós, o ritmo da fluidez, da satisfação, da própria sensação de que se está em alguma dimensão fora do tempo; e, por fim, Aión, o fluir sagrado e eterno, associado ao movimento circular dos astros, o que na teologia moderna corresponderia ao tempo de Deus. Por exemplo, as sucessivas estações do ano remetem ao sentido do eterno, o prazer de conceber uma obra artística demonstra a duração da plenitude, ao passo que o prazo para fechar um negócio ou entregar um trabalho mostra a face de Chronos. Se ao longo de um mesmo dia conseguirmos navegar por essas diferentes esferas, notaremos que é possível dilatar a percepção do tempo. O que nos libertaria da ditadura de um ritmo único e opressor, como o que nos “devora” atualmente.

Também vem da Grécia o exemplo do filósofo Epicuro (341-270 a.C.). O sábio buscava, acima de tudo, encontrar o sossego necessário para uma vida feliz e aprazível, traduzida por um corpo saudável e um espírito sereno. Nessa configuração, não haveria brecha para os temores perante o destino, os deuses ou a morte – e, podemos adicionar, as necessidades de sobrevivência e a ânsia pelo consumo que nos levam a correr tanto hoje em dia. Para ser feliz, pregava Epicuro, o homem necessitava de três coisas: liberdade, amizade e sossego para filosofar. Questões fundamentais da vida não combinam com velocidade.

Na cartilha epicurista caberia muito bem o conceito de ócio criativo, cunhado pelo filósofo italiano Domenico De Masi. O tão desejado intervalo para fazer nada – o “dolce far niente” dos italianos, consiste em deixar que a alma e o corpo digam que rumo desejam tomar naquelas horas soltas. Pode ser que o ócio nos leve para a rede, para um parque, para o cinema, para o museu.

Para isso, a culpa deve ser eliminada da mente. Ela aparece porque aprendemos que ir com mais calma é coisa de gente preguiçosa (pecado mortal em um mundo de demandas ininterruptas) ou porque não nos sentimos em dia com nossas obrigações (sempre existe algo por fazer). Quando isso acontece, devemos dizer a nós mesmos que a vida também é feita de vazios, momentos de inatividade ou de ações motivadas pelo bel prazer de saborear esses instantes preciosos. Sem ócio, abandonamos o mundo interior. Qual o ônus? Insensibilidade. E, sem tempo para sentir, você só reage. Ócio não é não fazer nada. É fazer coisas sem utilidade prática, mas que educam nosso mundo interior.

 

 

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ALINHAMENTO NATURAL

 

Assim como a alma, o corpo merece se ajustar à sua própria natureza, ou seja, aos ritmos fisiológicos. E calibrar essa sintonia é algo que só pode acontecer no reino da tranquilidade. O Ayurveda, a ancestral medicina indiana, diz que somos frutos da interação entre corpo, mente e consciência. A ciência nomeia esse alinhamento como ritmo circadiano (o relógio biológico). Trata-se da sincronia fisiológica que ocorre no nosso corpo pelo estímulo de agentes da natureza como a presença ou ausência de luz do sol, as estações do ano, a temperatura e seus impactos sobre o sono, o apetite, o humor. Na ausência de luz, por exemplo, o corpo produz melatonina, hormônio que induz ao sono. Na presença dela, a produção desse mesmo hormônio é inibida, levando ao estado de vigília. Quanto mais atentos e sensíveis nos mantivermos em relação a esses movimentos naturais, mais respeito teremos pelo funcionamento orgânico.

A alimentação é uma possibilidade para restaurar essa equação se, em vez de encarar as refeições apenas como um meio para aplacar a fome, fizermos dela um exercício para reduzir a marcha. Sob estresse, a digestão fica mais lenta e ineficiente, podendo gerar sintomas como azia, sensação de peso e empachamento, gases, constipação ou diarreia e absorção deficiente dos nutrientes.

 

 

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DE QUE TEMPO REALMENTE PRECISAMOS?

 

Podemos entender que não precisamos de mais tempo, mas de um tempo que seja nosso. Ou seja, redescobrir nossa intimidade com o tempo. E, para afiar essa escuta, podemos reservar alguns minutos pela manhã para estar conosco mesmo antes de disparar porta afora atropelando tudo pela frente ou de ligar o computador ou o celular. Vale meditar, respirar profundamente, sentir gratidão por estar vivo ou simplesmente mentalizar que o dia será proveitoso. Outra lição é entender que em alguns momentos teremos de acelerar e em outros, reduzir o ritmo. Apertar e afrouxar, contrair e expandir, como o coração, os pulmões, o útero, o universo. Somente quando nossos limites estão claros dentro de nós é que conseguimos nos impor perante a roda viva. A empatia pelos nossos próprios limites e pela capacidade de simbolizar devolve a paz de espírito.

Nessa levada, vamos abrindo pequenas janelas de fruição aqui e ali, como tomar um chá enquanto contemplamos um jardim, namorar a Lua, parar para apreciar um músico de rua, massagear os pés antes de dormir. É igualmente interessante estender certos procedimentos tornados mecânicos: preferir a escada no lugar do elevador, chegar à padaria pelo trajeto mais longo enquanto se percebe a respiração, o humor, os sentimentos que transitam naquele momento pelo coração, deixar-se levar por uma conversa gostosa sem checar a hora a cada cinco minutos ou fuçar no smartphone com medo de estar perdendo alguma novidade. Em suma, como ensinam os budistas, fazer-se presente e inteiro em cada gesto, sem se deixar levar pela agitação.

 

 

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PARA FAZER SERENAR

 

Colocar a mão na massa, na terra, na tinta, onde quer que os sentimentos possam ser canalizados, é outro excelente convite para aquietar a mente e o espírito. Todo fazer manual requer um tempo próprio, o que inevitavelmente nos sequestra da urgência e nos posiciona no lugar da alma, a partir do qual nosso íntimo pode se serenar.

Quando alinhamos os ponteiros internos ao relógio do mundo, desabrochamos. Nos tornamos mais saudáveis, bem-humorados, apaziguados, enfim, recuperamos a excitação de viver, além de passarmos a decidir com clareza como e com quem queremos passar as horas, os minutos. É quando somos capazes de decretar que tiraremos o dia para nos organizar internamente ou que desligaremos o celular por um período determinado. Nessas situações, o tempo volta a ser nosso e, em sua esteira, a paz de espírito, para conseguir escorrer – sem afobação – junto com as areias dessa misteriosa e sublime ampulheta chamada vida.

 

 

Fonte: Revista Bons Fluídos, Ed. 207

 

Ouça a canção atemporal de Lenine:

 

 

PACIÊNCIA

(Lenine / Dudu Falcão)

 

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não pára
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa
A vida é tão rara

Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo e normal
Eu finjo ter paciência
O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo para perder
E quem quer saber
A vida é tão rara tão rara
Mesmo quanto tudo pede um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma

Eu sei a vida não pára a vida não pára não
Será que é tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara
Tão rara
Tão rara
A vida é tão rara

 


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