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30.10.2018
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Viver em paz, morrer em paz
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Para o budismo a ideia não é exatamente que, quando morremos, a gota volta para o oceano. A compreensão, na verdade, é a de que a gota não sai do oceano, pois nós somos este oceano, e cada vida nossa é como se fosse uma onda. Essa onda que nós geramos com a nossa vida – formada por infinitas causas e condições, de um passado infinito e mais o que produzimos –, quando termina naquela marolinha à beira-mar, dará origem a outra onda, mas não a mesma.

O budismo não fala de uma alma eterna, nem sequer fala de alma, mas diz que esse ser, que termina naquela marola, no corpo que não serve mais, cria causas e condições para outra onda se formar. Não é mais a mesma onda, embora possua uma conexão muito profunda com aquela primeira. Portanto, o que acontece após a morte é que podemos ir para inúmeros universos, dependendo do karma que produzimos durante a vida – se fizermos coisas boas, médias ou más. Os resíduos cármicos produzem uma tendência de nascimento – e não se fala em reencarnação – em determinado nível, que pode ser de sofrimento ou de alegria. Voltamos, então, ao mais importante ensinamento budista: onde quer que você tenha nascido e onde quer que você esteja agora, estará sempre no momento de transformação do seu karma.

A partir da morte, então, corpo e mente se desintegram, mas os resíduos cármicos causam uma continuidade de consciência que reverbera em uma mente nascente em outro ser. Portanto, seres renascidos não são completamente distintos nem completamente iguais a seus ancestrais. E esse é um contraste com o conceito hinduísta de atman (do sânscrito, “alma”), um “eu” transcendente que reencarna, a ideia de uma alma fixa e permanente, imutável, que passa de uma vida a outras, como se não se modificasse.

 

TRANSITORIEDADE

 

Shakyamuni Buda, porém, veio a desvendar que tudo é transformação e movimento, ou seja, anatman (em páli, anatta), literalmente “não eu”. Significa que não existe um eu permanente e imutável nos elementos que compõem o Universo. Tudo está em constante transformação, tudo está em estado de fluxo, e estamos todos interligados e interdependentes, não sendo personalidades independentes e imutáveis.

Aliás, para o budismo, a noção de um eu permanente é uma das principais causas das guerras e conflitos na história humana. Sob a noção de anatta, “não eu”, podemos ir muito além dos anseios mundanos. Resumindo, hinduísmo e budismo entendem que há continuidade entre vidas, mas o hinduísmo considera um eu que reencarna imutável (atman), enquanto o budismo conclui que há apenas tendências e processos mentais que renascem (anatman).

O budismo compreende que, por 49 dias após a morte, o espírito está em processo incessante de transformação. Esse período é como a metade de uma circunferência, não importa se o ser teve apenas dias de vida, se morreu ainda dentro do útero ou centenário. Para o budismo, a outra metade se completa em 49 dias e celebra-se o 49º dia de falecimento, pois é nesse dia que se completa um ciclo de vida/morte. No budismo tibetano, são 49 bardos (etapas) pelas quais se tem de passar para poder ter um renascimento, para terminar esse ciclo de vida/morte.

Não existe um inferno eterno nem um céu eterno. Tudo é transitório. Para o budismo japonês, a morte é um renascer. E você vai renascer de acordo com suas tendências cármicas. Ou seja, não é mais você, mas essa outra vida que se forma e está baseada nas impressões deixadas pela última.

 

DESPEDIDAS

 

Monja Coen, certa vez, foi ao velório de um primo distante. Ela não o havia conhecido em vida (a família é enorme porque o avô teve dezesseis irmãos). O primo morreu aos 41 anos e foi a mãe dele quem procurou Coen e a convidou, pois ele era casado com uma japonesa e gostaria muito que ela comparecesse. O primo de Coen havia passado um ano difícil, sofrendo com câncer e fazendo quimioterapia. Ele, espírita, dizia que estava passando por aquilo que precisava, não sabendo o porquê, mas sabendo que era parte de sua existência. Inclusive era ele quem animava os outros pacientes no local da quimioterapia, fazia os demais se sentirem bem. Porque ele sabia que havia algo maior do que ele que fazia com que aquela situação estivesse acontecendo. Quando recebemos o que nos acontece assim como é, como podemos crescer com aquilo? Você seria capaz de agradecer por ter um câncer?

Quando Coen chegou ao velório, a mãe do primo disse que ele sempre falava que queria muito conhecê-la. Coen disse: Bem, estamos nos conhecendo aqui e agora. A mãe perguntou, então, se era verdade que o espírito estava ali. Para o budismo é assim: o espírito está ali em forma etérea, pode nos ver, mas nós não podemos percebê-lo. E ele ainda não sabe lidar com essa nova forma sem o corpo e, às vezes, dá umas voadas para lá e para cá, meio estabanado. Então, na prece, Rôshi disse: Você morreu, você irá para o crematório daqui a pouco. Agradecemos seus 41 anos de vida. Aqui estamos bem, vamos continuar neste plano, agradecendo a sua presença, sua vida, e que os seres iluminados acompanhem você na viagem e que sua viagem seja para a luz infinita.

Certa vez, Coen Rôshi foi chamada a um leito de morte. A filha de uma senhora budista já idosa chamou-a para uma última visita. Os médicos já haviam decidido pela sedação final, mas a filha exigiu que, antes, Coen Rôshi dissesse à mãe a verdade. De fato, não há por que esconder nem é justo dizer a uma pessoa que está morrendo que ela não está morrendo. É melhor e é preciso dizer. Não há nada de errado com a morte. “Diga a ela”, pediu a filha. Rôshi dirigiu-se à mãe e disse-lhe que ela estava morrendo, parabenizou-a pelos 77 anos que compartilhara com todos e orientou-a para a luz infinita. E completou que, se houve algo que não foi suficiente nas suas causas e condições além de erros e falas inadequadas, era o momento de se arrepender. O arrependimento é purificação. Finalmente, lembrou-a de retornar e abrigar-se em Buda, retornar e abrigar-se no Dharma, retornar e abrigar-se na Sanga. Fez a prece e pediu aos seres iluminados que os ancestrais daquela senhora viessem buscar.

Por isso, é preciso viver adequadamente e respeitar a vida, para não ter arrependimentos nem rancores quando chegar esse momento. É por isso que Buda e todas as tradições ensinam a não roubar, não matar, não mentir, não abusar da sexualidade, não perder a consciência, manter a consciência maravilhosamente humana. Saber o que se está fazendo. Escolher as palavras, gestos e movimentos. Apreciar a vida para poder apreciar a morte.

Agradeça a seus mortos todos os dias, ofereça um incenso, uma prece e diga: “Vá em paz, meu querido, terminou sua missão entre nós, pode ir em direção à luz infinita; não se preocupe conosco, estamos bem”. É importante conversarmos assim com os nossos mortos. Que o espírito que se foi possa ir em paz, que não o fiquemos chamando nem segurando aqui. Está na hora de ir para a luz infinita, já passou pela dor e pelo sofrimento; que descanse em paz. Vamos todos morrer um dia. Até lá, apreciemos a capacidade de sermos humanos que interagem com tudo e todos. Não se isole. Olhe para dentro de si e aprecie a bênção de ter nascido e estar vivo neste instante.

 

 

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Fonte: Zen para distraídos, Monja Coen e Nilo Cruz, Academia

 

 

Assista a este emocionante vídeo com o poema budista "The Great Bell Chant" narrado pelo seu próprio autor, o monge zen vietnamita Thich Nhat Hanh:

 

 


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