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CULTURA
21.01.2020
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O mito do Éden
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O mito do Éden é uma metáfora da transformação da consciência do animal em consciência humana. O Éden, ou Paraíso, representa o estado pré-polarizado da consciência, quando os pré-humanos viviam em meio aos animais, comunicando-se com eles sem o auxílio da fala. A expulsão ou Queda representa a polarização do paraíso, quando o cérebro se lateralizou para a fala, criando assim o eu, a moral e a História.

 

 

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CAMINHO DA DUALIDADE

 

O mito do Éden é uma metáfora composta, uma colagem que se constituiu em diversos períodos e culturas. A serpente, que perde a sua pele e parece renascer da própria carcaça, é um antigo símbolo da morte e da regeneração, do nada e da oscilação dos opostos, que tenta Eva a fazer a experiência da dualidade. A árvore é o axis mundi, o eixo do mundo, o bastão sagrado que se estende da Terra até o céu. Adão e Eva são, no mito, os primeiros seres humanos, os pais do mundo inteiro, cuja expulsão do Paraíso assinala o começo da espécie humana.

No mito bíblico do Gênesis, Adão e Eva são expulsos do Paraíso e se tornam plenamente humanos em decorrência do seu pecado, o pecado original, que é a neurose universal da humanidade. Na Bíblia, o pecado de Adão é retratado como um ato bem específico: desobedecer a Deus e comer o fruto proibido. Mas o pecado original não poder ser um ato em particular que os seres humanos não possam comer. Ele é necessariamente inerente à natureza humana, é um produto da evolução.

Quando Deus proibiu Adão de comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, a proibição suscitou dialeticamente em Adão a consciência da possibilidade de escolha. Proibição implica escolha. Ela só faz sentido no contexto da escolha, da possibilidade de a proibição ser violada. Como todos os seres humanos, Adão sentiu-se temeroso perante a possibilidade da liberdade. Esse temor é a interação entre o desejo e a aversão – a experiência de desejar o que se teme e temer o que se deseja.

O temor é a polarização da consciência, que se manifesta como a percepção do positivo e do negativo em cada possibilidade. O primeiro mandamento é a negação que cria a possibilidade da liberdade. Quando Deus ordenou a Adão: “Não! Daquela árvore não comerás”, Adão tomou consciência da possibilidade: “Sim! Daquela árvore eu quero comer”. Como a criança que se torna autoconsciente no momento em que é paralisada por uma proibição dos pais, Adão se tornou humano num choque causado por um “Não!” divino e cósmico. O tabu assinala o princípio da escolha e da moral. A liberdade de escolha é assombrada pela possibilidade de escolher mal. A liberdade é assombrada pela culpa, assim como o “Sim!” é assombrado pelo “Não!”. A possibilidade da liberdade assombrada pela culpa é o fim da inocência.

No mito bíblico do Gênesis, a serpente tenta Eva a comer o fruto proibido, prometendo-lhe que, ao contrário do que Deus havia dito, ela não morreria. Ao invés disso, a serpente prometeu: “Vossos olhos se abrirão, e vós sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal”. A serpente é um símbolo de morte e renascimento – da dualidade. Ao se ver diante da serpente, Eva se viu diante do fato da morte e da dupla possibilidade do bem e do mal. O fato da morte é, provavelmente, um dos primeiros fatos conhecidos pelo homem. O aparecimento súbito de ritos funerários no período Paleolítico Médio dá a entender que os Neandertais percebiam o fato da morte. Os cadáveres enterrados de frente para o Oriente e cobertos de flores sugerem o desejo de renascimento, talvez da imortalidade. A tentação de Eva pela serpente é uma metáfora da crescente percepção da morte e do desenvolvimento dialético do desejo de vida eterna.

O medo da morte e o desejo de ser Deus são as características fundamentais do ego humano. O desejo de ser Deus é o projeto de felicidade universal do ser humano. Jean-Paul Sartre escreveu: “A melhor maneira de conceber o projeto fundamental da realidade humana é dizer que o homem é o ser cujo projeto é ser Deus... Ser homem significa procurar ser Deus. Ou, se você preferir, o homem é fundamentalmente o desejo de ser Deus”. Não foi Sartre quem inventou essa ideia. Platão pensava que “todos os homens fazem todas as coisas, e quanto melhores eles são, tanto mais as fazem, na esperança da fama gloriosa da virtude imortal; pois eles desejam o imortal”. Dante fez eco a Platão com o clamor: “Como se faz eterno o homem!”.

O desejo de ser Deus é uma reação contra o medo da morte. Blaise Pascal lamentou: “O último ato é trágico. Por mais feliz que seja o resto da peça, no fim um punhado de terra nos é jogado sobre a cabeça e daí tudo acaba para sempre”. O medo da morte surge quando o ego se percebe transitório e insignificante perante o cosmos. O medo da morte é o medo que o ego tem da sua própria dissolução, de transformar-se de alguém em ninguém. Dialeticamente, o desejo do ego é ser Deus, ser imortal e invulnerável, viver feliz para sempre. É a extensão simbólica do impulso vital de sobreviver e vencer. Constantemente ameaçado pelo espectro do próprio desaparecimento, o ego luta para se afirmar, para fazer-se durável mediante a conexão vital com objetos duráveis, para sobreviver à morte por meio da fama e da glória, para esculpir o seu busto no Rochedo das Eras. Nossos desejos, aspirações e ambições pessoais, por mais triviais que sejam, podem ser estratégias para transcender o medo da morte.

 

 

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O PESO DAS ESCOLHAS

 

Logo que Adão e Eva provaram o fruto proibido, seus olhos se abriram e eles se tornaram como deuses, conhecedores do bem e do mal. Os olhos são uma metáfora da consciência. A abertura dos olhos e a visão da luz simbolizam a transformação da consciência em consciência humana. O instrumento dessa transformação foi o fruto proibido. Nesse sentido, a maçã mítica do Éden era uma substância psicodélica (psicodélica = que manifesta a mente) como o LSD, mas com o efeito oposto. A maçã era um fruto proibido por Deus porque tinha o poder de criar o eu. O LSD é um fruto proibido pela sociedade porque dissolve o eu. Quem o come abre as portas da percepção do paraíso (ou do inferno) e acaba expulso da sociedade. O fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal gera a rede linguística de significados antiéticos, o conhecimento do eu e do outro, do bem e do mal, da História e da morte. Quem o come é expulso do Paraíso. A expulsão do Paraíso é uma metáfora da evolução da fala antiética, do nascimento da dualidade a partir do tao inefável. Expressa-se poeticamente no Tao-Te King chinês, o Livro do Caminho e da Vida.

 

O Tao descrito em palavras não é o verdadeiro Tao.

As palavras não podem descrevê-lo.

Sem nome, ele é a fonte de criação.

Com um nome, é a mãe de todas as coisas.

Sempre que se percebe o mais belo, surge a fúria.

Sempre que se percebe o bem, o mal existe, seu oposto natural.

Assim, a percepção envolve opostos;

Realidade e fantasia são pensamentos que se opõem.

O difícil e o simples se opõem em graus;

O longo e o curto se opõem em distância;

O alto e o baixo se opõem em altura;

O agudo e o grave se opõem em tom;

O antes e o depois se opõem em sequência.

 

Logo que Adão e Eva comeram a maçã psicodélica, eles ficaram envergonhados. “Abriram-se, então, os olhos de ambos; e percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira, e fizeram cintas para si”. A vergonha é o produto dialético do orgulho. Ela aparece quando o orgulho fracassa. Se o orgulho é o desejo de ser Deus, a vergonha é a revelação antitética do corpo mortal animal. Nós ficamos envergonhados quando a nossa atuação social se desintegra, quando tropeçamos em atos e palavras, despindo-nos momentaneamente do eu social e revelando uma criatura imperfeita. O orgulho é a negação da criatura finita. A vergonha é a exposição da sua nudez.

A ocultação dos órgãos genitais com folhas de figueira simboliza a repressão do corpo animal. Representa a transição edipiana da espécie, o rito de passagem de animal para ser humano, análogo à passagem da infância para a maturidade social. A repressão do corpo equivale a uma promessa de fidelidade ao símbolo, ao eu e à sociedade. Todas as sociedades estabelecem um sistema moral que exige a repressão e o controle do corpo, por meio do qual elas adquirem controle sobre a mente. A proibição do incesto, da masturbação, das perversões sexuais, do suicídio, do canibalismo e do uso de certas substâncias psicotrópicas serve à função mais profunda de firmar o poder do grupo social sobre o indivíduo.

Hoje nós temos uma visão estreita do incesto; ele parece apenas uma tragédia da família nuclear. Nas sociedades primitivas, porém, onde a família era maior, compreendendo clãs e tribos, as regras de incesto determinavam quem podia se casar com quem, e desse modo constituíam a base da organização social. A proibição do suicídio nega o controle individual sobre a morte. O controle do sexo e das drogas estabelece o domínio da sociedade sobre o corpo. Ao firmar seu domínio sobre o prazer e a morte, a sociedade se estabelece a si mesma, aos olhos do indivíduo, como Deus.

A expulsão do Paraíso é a Queda no abismo da História. Ela introduz um elemento moral na evolução, não na qualidade de um pecado em particular, mas de uma capacidade de escolha. O pecado original é a evolução da escolha entre caminhos antitéticos de ação. A capacidade de escolha, por sua vez, deriva da evolução da linguagem antitética e das percepções antitéticas do mundo objetivo. O bem e o mal são abstrações das ações certas e erradas, do Sim! e do Não! dados como comandos verbais. A regulação do comportamento por meio de comandos verbais exigia uma forma de aprendizado mais rápida e flexível do que a que era dada pelo código genético ou pelo arco reflexo. Exigia a capacidade de armazenar, recuperar e modificar informações quase instantaneamente. Em outras palavras, exigia o desenvolvimento da memória.

Na memória, os comandos verbais e regras morais permanecem acessíveis e eficazes muito tempo depois de serem recebidos. Por intermédio da memória, o passado volta à consciência. A memória do passado, além disso, cria dialeticamente o futuro, à medida que as memórias vão se alinhavando em sequências de antes e depois, derivadas das sequências visual-espaciais de “à frente” e “atrás”. O futuro é a memória que virá. A memória do passado e a imaginação do futuro são a Queda no abismo do tempo histórico.

 

 

Fonte: Projeto Felicidade, Ron Leifer, Cultrix

 

 

 

 

PECADO ORIGINAL

(Caetano Veloso)

 

Todo dia, toda noite
Toda hora, toda madrugada
Momento e manhã
Todo mundo, todos os segundos do minuto
Vivem a eternidade da maçã
Tempo da serpente nossa irmã
Sonho de ter uma vida sã

Quando a gente volta
O rosto para o céu
E diz olhos nos olhos da imensidão:
Eu não sou cachorro não!
A gente não sabe o lugar certo
De colocar o desejo

Todo beijo, todo medo
Todo corpo em movimento
Está cheio de inferno e céu
Todo santo, todo canto
Todo pranto, todo manto
Está cheio de inferno e céu
O que fazer com o que DEUS nos deu?
O que foi que nos aconteceu?

Quando a gente volta
O rosto para o céu
E diz olhos nos olhos da imensidão:
Eu não sou cachorro não!
A gente não sabe o lugar certo
De colocar o desejo

Todo homem, todo lobisomem
Sabe a imensidão da fome
Que tem de viver
Todo homem sabe que essa fome
É mesmo grande
Até maior que o medo de morrer
Mas a gente nunca sabe mesmo
O que é que quer uma mulher

 


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